Outra Vez Miau!

Outra Vez Miau! - © Teatro de Ferro

Outra Vez Miau!


Convocado para escrever um texto para a folha de sala, ocorreu-me partilhar algumas ideias e memórias que o processo de criação desta peça despertou. Aqui estão!


Partimos da ideia de repetição, de coisa que sucede uma e outra e outra vez. Há muitas coisas assim na vida: O batimento cardíaco, a respiração, as férias e o regresso à escola, os aniversários, o nascimento de um irmão, de uma irmã, jogos e brincadeiras de que gostamos, a chave do carro que ficou no bolso do outro casaco, a passagem pelo supermercado à vinda... À medida que vamos crescendo e tomando consciência do mundo vamo-nos também apercebendo de que é assim que funciona: há acontecimentos que regressam com regularidade e outros que são diferentes, até mesmo únicos. Uns e outros são importantes na forma como nos estruturamos, mas a ideia de rotina quotidiana embora nos afete enquanto crianças só surge enquanto conceito um pouco mais tarde. É a consciência distanciada da nossa participação nesse sem-número de gestos reiterados, de interações repetidas que desenha na nossa mente e no nosso corpo essa consciência. A repetição e a surpresa são também dois modos de concretização da expetativa e podem ser, ambas, geradoras de prazer e desprazer. Em Outra Vez Miau! procurámos trabalhar em torno destas questões de uma forma divertida e estimulante para os mais pequenos, a verdade é que, às vezes, é a brincar que compreendemos as coisas mais complicadas.


As três pessoas que estão em cena conhecem-se desde sempre. Eu conheço-as desde que nasceram. São amigos, amigas irmãos, irmãs, primos emprestados. Cresceram juntos, umas vezes mais próximos, outras menos. No teatro é tudo a fingir, bem sabemos, mas são sempre pessoas verdadeiras a fingir. Construir relações, projetos comuns exige sempre este equilíbrio sensível entre realidade e imaginação, entre verdade e fantasia.


Quando era criança mudei algumas vezes de casa. Deixava para trás sempre alguns amigos, muitos deles para sempre. Um dia, após uma dessas mudanças decidi fazer um inventário de todos os meus amigos e amigas, presentes e ausentes. Começava a perceber que ia acabar por me esquecer de alguns (o que de facto veio acontecer), então peguei nos marcadores e numa folha A4 com linhas e comecei a escrever os seus nomes, uma cor para os que estavam perto e outra para os que estavam longe, juntei mesmo à lista um ou outro miúdo com quem me tinha zangado, embora tenha escolhido uma cor diferente para os seus nomes. A lista continha ainda uma secção dedicada aos amigos de outras espécies - animais de estimação, nossos e dos vizinhos: cães, gatos, um periquito, o nosso cágado alentejano que antes de viver em nossa casa tinha vivido numa Unidade Colectiva de Produção (...ainda sou do tempo da reforma agrária), adicionei também alguns cães vadios cujos nomes tive de inventar, pois, sendo eles vadios, cada um lhes chamava como queria e eles não se importavam nada com isso. Quando era criança ainda havia bandos de cães vadios que percorriam as cidades e as vilas, tornei-me amigo de alguns e por vezes parecia mesmo que me tinham acolhido na sua matilha. Outras vezes preferíamos ficar sozinhos durante um bocado, a explorar um qualquer recanto cuja existência os humanos adultos tinham esquecido.


Nesta peça em que também falamos sobre as relações entre pessoas e animais, partimos para esta criação inspirados pela experiência do convívio prolongado com a nossa gata. A Piper está connosco há mais de 12 anos e, lá em casa, todos achamos que é um animal extraordinário. Já teve vários donos e várias vidas, já deu à luz várias vidas também. É uma criatura dotada de uma inteligência emocional fora de série - justificar esta afirmação requereria um texto autónomo e um pouco extenso - mas, acreditem, é mesmo. É também uma amiga de outra espécie... talvez a amizade possa ser mesmo universal, como certas ideias sobre a gramática da linguagem.


A peça inspira-se também um pouco na ideia de infra-ordinário desenvolvida por Georges Perec nos seus exercícios de inventariação do quotidiano. Nesta peça há mais lugar para pequenos acontecimentos de aparente menor importância do que para os grandes ou extraordinários feitos que habitualmente impulsionam as narrativas. Até os objetos escolhidos são dessa ordem, um estendal, um rádio a pilhas e, claro, caixas de cartão a que não resistem as crianças brincalhonas e ainda menos os gatos curiosos. É nos interstícios da realidade que a fantasia, o sonho e a brincadeira encontram lugar para crescer.


Ao mergulhar no universo dos gatos apercebemo-nos que esta espécie recuperou uma parte do seu antigo estatuto de divindade com o advento da internet e que há um novo culto dos gatos ao qual, talvez distraidamente, nos tenhamos convertido. É talvez por isso que o gesto da contemplação felina, da observação aparentemente desinteressada é estruturante neste espectáculo - temos um gato que, quando não está a dormir, passa uma parte importante do tempo a ver o que se passa, o que, se virmos com alguma atenção, não é coisa pouca. É uma forma de existir em cena e um convite ao estimado público para usar o seu tempo desta forma também.

Igor Gandra

abril 2025