WI - © Susana Neves

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Sinopse

Sonoscopia e Teatro de Ferro deslocam os contornos tradicionais do concerto encenado e, por conseguinte a fronteira, menos volante do que seria desejável, entre as artes do palco e a música ao vivo, a escrita no sentido estrito e a improvisação no sentido lato.

DOUBLE VÊ, DOUBLE OUVE, DOUBLE WE

Chamam-lhe "concerto encenado" como se estivessem dispostos a submeter-se às precárias regras de um género. Mas não. O projeto bicéfalo Sonoscopia / Teatro. de Ferro abraça outras ambições concertadas e desconcertantes, que vão desde a evocação de um mundo industrial e laboral (W de WORK) do século XIX (subsistente e próspero nas zonas mais pobres do planeta) ao maravilhoso mundo novo do neo-liberalismo, em que a ética do trabalho, reacionária ou revolucionária, foi substituída pelo imperativo da produtividade e do crescimento (à revelia de qualquer racionalidade ou respeito pelos vindouros), passando pela reminiscência da condenação genesíaca do homem a ganhar o sustento à custa do suor do seu rosto. Músicos e marionetistas, intérpretes e performers, autores e atores encaram esta quadratura do círculo como resultante possível de um trabalho de sobreimpressão, de contaminação e de outros estados cénicos de impura mistura.


A postura de Igor Gandra, orquestrador da encenação, e de Gustavo Costa, encenador da orquestração passa por um jogo de colagem e de mescla do pré e do pós, rumo à construção abstrata de um "mega-device" que funciona simultaneamente como fábrica descarnada, templo do empreendorismo e da mercantilização do vivente, momento-monumento que ecoa o estertor das ideologias, lugar de proletarização dos instrumentos nobres e de nobilitação de sonoridades prosaico-concretas, etc. Trata-se de criar uma paisagem emocional e ideológica propícia (porque contrastante) à irrupção do lirismo, confiada, com notório acerto dramatúrgico, a uma voz sublime (Adriana Romero) que se nos oferece de rajada e em jeito de metralha, como que possuída pelos demónios do canto.


A pesquisa da trupe e dos compositores foca-se num patamar arriscado, a saber: criar um texto textura, uma partitura em parceria que, sem anular as fronteiras entre a linguagem cénica (Igor Gandra, Carla Veloso e Eduardo Mendes) e a linguagem musical (Alberto Lopes, Henrique Fernandes, Tiago Ângelo, além de Gustavo Costa) as dilui no plano da visualidade não figurativa (Jorge Quintela, Mariana Figueiroa) e as faz convergir para uma busca de um denominador comum no terreno da abstração. A expressão física e concreta do som perde corporalidade quando evolui num quadro cenográfico em que as referências foram deliberadamente abolidas. O texto cénico, que inclui tudo o que não se radica na escrita musical, incorpora-se em corpos e situações esvaziadas, cuja leitura convoca o conhecimento de códigos e codificações: a maternidade e a pietà na pintura, por exemplo.


Sonoscopia e Teatro de Ferro deslocam os contornos tradicionais do concerto encenado e, por conseguinte a fronteira, menos volante do que seria desejável, entre as artes do palco e a música ao vivo, a escrita no sentido estrito e a improvisação no sentido lato.


-Regina Guimarães-